Continuamos esta nossa caminhada de revisitar os dez pecados mortais que uma organização pode cometer, comprometendo a Estratégia Global e eventualmente levando à sua extinção, propostos, em 2004, por Michel Robert.
Pecado nº3 – Encomendar a estratégia a um consultor externo
O maior dos crimes estratégicos que se pode cometer, e verdadeira sentença de morte para qualquer estratégia - mesmo que boa -, é deixar que seja um consultor externo a concebê-la.
Nenhum consultor externo tem o direito de definir o rumo da sua empresa, ou conhece tão bem o seu negócio e a sua envolvente como o seu pessoal.
Nenhum consultor externo irá viver, no dia-a-dia, as dificuldades com que a empresa se irá enfrentar.
A estratégia, como já fomos vendo, “define a natureza e a direcção da organização”, ou seja, o seu perfil futuro, aquilo que aspira tornar-se.
Se a um jovem lhe for amputada a possibilidade de pensar e escolher o que gostaria de vir a tornar-se, que jovem estaremos a formar?
O mesmo se passa com grupos, comunidades ou organizações (com ou sem fins lucrativos) quando lhes retiramos a possibilidade de construir consensualmente e de uma forma racionalmente articulada essa escolha, estamos igualmente a retirar-lhes a possibilidade de construírem por si mesmo uma aspiração que mobilize e que, por tal facto, é, no nosso ponto de vista, um elemento fundamental da liderança estratégia.
O resultado é que a esmagadora maioria dessas estratégias desenhadas por consultores externos acaba no cesto do lixo, por duas razões fundamentais:
1. As suas conclusões são facilmente colocadas em causa, porque não se fundamentam num conhecimento íntimo e profundo da empresa, do negócio, nem do mercado;
2. A equipa de gestão não se sente comprometida com essa estratégia, pois não é “sua”, tendo por este facto perdido a capacidade de se tornar um elemento motivacional critico.
No nosso post de 12 de Julho, escrevíamos:
“Grande parte da literatura de gestão aponta para a necessidade das organizações terem uma estratégia que deve ser naturalmente implementada e executada. No entanto, numa perspectiva de liderança estratégica isto é muito, muito insuficiente.
Para um líder estratégico consciente o importante é alimentar um raciocínio estratégico vivo na organização, que permita aos seus elementos chave assimilar os fundamentos da estratégia da organização e desenvolver as suas competências de reflexão estratégica, para que possam identificar, no concreto dos dias, todas as oportunidades e ameaças com que se confrontam.”
Quando uma empresa opta por recorrer a um consultor externo: i) aliena a capacidade de desenvolvimento/reflexão estratégica e de responsabilização dos seus quadros fundamentais; ii) perde a capacidade de assumir uma liderança estratégica efectiva; iii) só com muitas dificuldades conseguirá executar minimamente a estratégia então formulada (pelos consultores externos) pois muitos dos elementos críticos da organização acabarão por executá-la com pouca convicção ou numa óptica de mera gestão corrente ou, pior ainda, fazendo tudo o que esteja ao seu alcance para demonstrar que a estratégia é errada.
Como afirmou já há alguns anos o responsável de uma empresa:
“Já trabalhei com a McKinsey, a BCG e a Bain, e achei-as a todas muito competentes e detentoras de uma abordagem bastante sensata. O único problema é que esse trabalho não é das pessoas, pelas pessoas, através das pessoas; não é da propriedade das pessoas, que mais tarde terão de viver com as suas consequências. Quando a solução é desenvolvida por um elemento estranho à organização, é uma solução que lhe é estranha.”
De modo a obter o comprometimento dos gestores-chave com a estratégia da empresa, eles têm de ser envolvidos num processo racional, congruente e robusto, que permita construir consenso e compromisso em cada etapa do processo, de modo a assegurar que todas as opiniões são escutadas e discutidas.
De acordo com a nossa experiência, a sua participação, apesar de implicar maior dispêndio de tempo na definição da estratégia, reforça o comprometimento e facilita de forma determinante a fase de implementação. Só assim, sendo chamados a contribuir para a definição da estratégia, é que os gestores-chaves se envolvem na estratégia e a assumem-na como sua. Enfim, ganha-se liderança estratégica.
No referido texto, Michel Robert, dá alguns exemplos de afirmações que foi recolhendo junto de CEO’s ao longo da sua vida profissional, deixo-vos com a seguinte:
“Acredito que só uma estratégia em que as pessoas acreditem, as pode levar a atingir os objectivos propostos. Pode ter-se esboçado a melhor estratégia do mundo, mas não atingiremos o sucesso se ninguém se sentir motivado para a concretizar. Estou certo que, para uma estratégia ter sucesso, as pessoas-chave têm que fazer parte da sua elaboração.”
Lição nº3 – Não subcontrate o seu pensamento a um consultor externo










