Na passada sexta-feira tive a oportunidade de
participar num seminário onde dois dos oradores, o Eng. José Ferraz e a Dr.ª
Rute Paiva, ambos da Lusoverniz, falaram do papel da humildade e da sua
importância para romper os paradigmas que dominam o pensamento organizativo.
É muito atípico dar este tipo de destaque, numa
intervenção com estas características, a um valor ético e sobretudo à humildade.
Bem hajam, por esse contributo.
Já muito se escreveu sobre o papel crítico da
humildade no exercício eficaz da liderança.
Paradoxalmente, no entanto, apesar de se reconhecer
a importância da humildade no pensar e agir dos líderes, muito poucas vezes
(mesmo muito poucas!) se percebe a sua presença na reflecção e na acção daqueles
– e nos mais diversos contextos de liderança, não apenas nos empresariais ou
mesmo políticos.
A humildade percebida como uma receptividade, uma
condição de silêncio, que é fertilidade, para gerar-se e gerar o novo, é coisa
de gente muito madura. Mas tão madura que reconhece, sem ansiedade,
continuamente o quanto está ainda por se fazer…
A humildade assim entendida é uma condição
essencial ao sucesso da organização no contexto de mudança aguda que
experimentamos. Quando tudo muda tão rapidamente, a humildade, enquanto
condição de receptividade capaz de gerar, permite-nos antecipar e explorar essa
mudança de forma muito mais eficaz.
No entanto, os líderes que hoje conhecemos à frente
de organizações, grupos e comunidades são filhos de uma lógica de liderança na
qual acabaram por ser modelados. Por outras palavras, são o resultado de um
modelo de liderança que existe no interior daquelas organizações, grupos e
comunidades.
Terão estes modelos de liderança, a maior parte das
vezes apreendidos de forma acrítica, a capacidade de lhes transmitir e
desenvolver humildade? Será que estes modelos de liderança promovem líderes
capazes de exercer liderança com humildade? Ou pelo contrário, promove líderes que
subalternizam a humildade?
Precisamos de organizações onde se respire
humildade, onde esta humildade seja um vector estruturante da cultura. E isto
quando entendido de forma séria é muito exigente para todos, porque a humildade
é trabalho de todos – onde naturalmente a liderança, pelo exemplo, tem um papel
fundamental.
Vejo muita gente a procurar palestras motivacionais
e muito poucos a construir contextos e culturas que motivem, entusiasmem,
mobilizem. A humildade é um valor fundamental para criar uma cultura rica,
viva, geradora de mudança e verdadeiramente mobilizadora.
No nosso ponto de vista constatar isto é muito
pouco.
Mantem-nos no plano da especulação das ideias, que é naturalmente interessante, mas poderá significar coisa nenhuma na realidade
das organizações.
Importa reconhecer isto e arregaçar as mangas, ou
seja, encontrar formas concretas, processuais, de trabalhar a cultura
organizativa.
Ao longo dos anos, pela observação, fomos
constatando que uma das formas mais eficazes de o fazer consiste em trabalhar o
conhecimento e a formulação de decisão, em contexto organizativo, pressupondo a
ausência de uma hierarquia do conhecimento.
Concretamente, todos trabalham conjuntamente sobre um
processo de construção racional, feito passo a passo, em que é tão importante o
fim como o caminho em si, em que as encruzilhadas são feitas de encontro e de
diálogo com os outros.
Desta forma, reflectir organizativamente é “como
entrar num labirinto, mais precisamente é fazer existir e aparecer um labirinto,
em que vamos caminhando conjuntamente, quando se poderia ter ficado estendido
entre as flores, a olhar o céu. Ficar estendido entre as flores pode significar
uma prisão aos esquemas de percepção codificados, baseados na linearidade e num
saber disciplinar - acumulativo, que privilegia um tipo de inteligência sobre
as demais. Nesta metáfora do labirinto como processo de construção, tudo é
considerado texto. É uma rede na qual os saberes estão interligados. Não há um
acima e abaixo, não há hierarquias, não há algo que seja mais fundamental do
que qualquer outra coisa.” (1)
No final todos contam e todos fazem parte da
solução encontrada. Muito mais, criamos uma organização que caminha e
descobre/revela o seu próprio caminho, desenvolvendo todos os que nele
participam e reforçando a coesão da equipa.
Numa organização com estas características a
humildade não é uma palavra ou um chavão, está a ser efectivamente construída a
partir da: i) receptividade à opinião do outro, mesmo que muito diferente ou em
contra-corrente: ii) permanente leitura e interpretação colectiva do que está a
acontecer em torno da organização - ser humilde face aos que nos rodeia.
Uma organização, assim, constrói uma receptividade
que a renova, no concreto das suas diversas dimensões, continuamente.
Está a
fazer a mudança, em vez de se vitimizar dela.
(1) - Extraido de: “LABIRINTO: METÁFORA DO CONHECIMENTO” de Andréa Havt, Eduardo Loureiro Jr., Fabiano dos Santos, Paulo Meireles Barguil
(1) - Extraido de: “LABIRINTO: METÁFORA DO CONHECIMENTO” de Andréa Havt, Eduardo Loureiro Jr., Fabiano dos Santos, Paulo Meireles Barguil




