"Os dogmas de um passado calmo são inadequados
a um presente tempestuoso.
O nosso presente é extraordinariamente difícil e nós
temos de nos elevar com o desafio. Como o nosso caso é novo, temos de pensar de
uma maneira nova e agir de uma maneira nova. Temos de nos desenredar e assim
conseguiremos salvar o nosso país.”
A beleza da reflexão de Abraham Lincoln prolonga-se
na extrema inteligência que a escolha de palavras revela.
Ken Robinson, numa apresentação em que usa aquele
pensamento acrescenta: “Adoro esta palavra, «desenredar». Sabem o que
significa? Que há ideias em que todos estamos enredados, que nós consideramos
serem dados adquiridos, como a ordem natural das coisas, como o modo como as
coisas são. E muitas das nossas ideias formaram-se, não para corresponderem às
circunstâncias deste século, mas para lidarem com as circunstâncias dos séculos
anteriores. Mas as nossas mentes ainda estão hipnotizadas por elas. E temos de
nos desenredar, de nos libertar de algumas delas. Ora, isto é bem mais fácil
dizer do que fazer. A propósito, é muito difícil saber o que é para nós um dado
adquirido. E a explicação para isto é que o tomamos como garantido.”
No entanto, sem nos desenredarmos não é possível
pensar de uma maneira nova, para que aconteça uma nova maneira de agir. Na
verdade, a elevação com o desafio, a que se refere, só se torna possível para
quem se soltar das suas redes.
E se isto é difícil no plano do individuo é ainda
mais difícil no plano organizativo. É um enorme desafio para a liderança.
É delicioso atentar na forma como está redigida
esta reflexão.
Repare-se que o autor não diz: pensar e agir de uma
maneira nova. Provavelmente seria a redacção que muitos de nós faríamos.
Pelo contrário, escreve: “temos de pensar de uma
maneira nova e agir de uma maneira nova”.
Ao fazê-lo está a enfatizar algo extremamente
importante a que tanto resistimos culturalmente (em Portugal e em boa parte da Europa do Sul), a importância de tornar o acto de pensar temporalmente separado, deliberadamente anterior e causador da acção. Aliás, só esta muito intencional
separação de um pensamento estruturado e cuidado que modela a acção, capaz de
se rever e de se auto questionar pelos seus resultados, cria as condições
necessárias para se desenredar.
No nosso ponto de vista, não é possível a uma organização
desenredar-se dos seus imensos dogmas sem que este pensamento:
- tenha uma forma (processo) que permita trazer à luz os dogmas e pressupostos
que lhe subjaz;
- seja plural, ou seja, construída através de um debate orientado onde se
torne claro as diferentes leituras possíveis, assentes em diferentes dogmas e
pressupostos. Naturalmente, este debate deve integrar os elementos críticos da
organização para que seja efectivo;
- possa desconstruir-se, através da sua estrutura processual de
formulação, para que se torne possível perceber, pelos resultados da acção, que
pressupostos nos estão a impedir de produzir resultados superiores.
“Temos
de nos elevar com o desafio.”
Esta
frase é tremenda e sugere uma imagem muito bonita, mas deixa uma pergunta:
Queremos
efectivamente elevar-nos com o desafio?

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