Hoje continuamos a reflectir sobre este tema que
atravessa vários dos textos que temos colocado recentemente no blog, a “Empresa
que pensa”, particularmente sobre a necessidade crítica de se “melhorar o modo
como as organizações pensam”.
No último texto, iniciamos uma reflexão sobre “a
forma como pensamos enquanto indivíduos chamados ao exercício da gestão”,
designadamente sobre os dois modos de pensamento, que nos propõe Daniel Kahneman
no livro " Pensar, Depressa e Devagar”, a saber:
- um automático, instantâneo, intuitivo, que produz
respostas involuntárias fornecidas pelo o que Kahneman denominou de
“Sistema I” de pensamento;
- um outro controlado, esforçado, analítico a que
chama o “Sistema II”.
Como vimos, a maioria dos líderes
e gestores usam o “Sistema I” de pensamento sempre que possível para minimizar
o seu esforço. Esta tendência para minimizar o esforço, está directamente
relacionada com esta nossa constante propensão fisiológica de “poupar energia”,
que nos leva a cometer erros na formulação de decisões e na resolução de
problemas.
Esta nossa propensão para a
utilização do “Sistema I” e a sua natureza específica de funcionamento,
explicado mais detalhadamente no post anterior, leva a um conjunto de
consequências que convêm a todos os decisores organizativos ter bem presente:
A - As nossas formulações de decisão e de
resolução de problemas são inconscientemente influenciadas
O livro de Daniel Kahneman evidencia este facto com
várias experiências bem ilustrativas que irei, para bem da sua paciência,
poupar ao leitor. Deixo apenas a título de referência que uma das influências
inconsciente a que a o “Sistema I” está sujeito é, segundo a denominação que Kahneman
lhe atribuiu, “The Priming Effect”. Concretizado, estímulos recentes podem ter
activado ideias na nossa memória associativa que permanecem não identificadas
pelo radar das nossas mentes conscientes, no entanto, irão reflectir-se nas
conclusões que formulamos quando utilizamos o “Sistema I”.
Todos já experimentamos situações em que percebemos
à posteriori que a nossa decisão acabou por ser influenciada por um noticia que
ouvimos antes na rádio ou uma conversa que tivemos com um amigo. Também já
vivemos situações em que percebemos que o humor do momento, ou a circunstância
em que nos encontramos, determinou a decisão que tomamos.
B - Estamos pré-formatados para saltar para as
conclusões
Segundo Kahneman assim que nos deparamos com um
problema, o nosso “Sistema I” acede à memória associativa para procurar algo
que ele reconheça e que possa constituir uma possível causa. Para minimizar o
esforço, o “Sistema I” irá construir a solução mais lógica e apelativa que
possa, com base no seu histórico de experiências. O problema é que o gestor não
está ciente das experiências que o “Sistema I” utiliza como referência na sua
procura por uma solução coerente, nem de qualquer ambiguidade subjacente, uma
vez que esta ambiguidade é suprimida à medida que a resposta emerge na sua
mente.
Quando olha para as duas caixas do exemplo acima,
quase certamente irá ler o conteúdo da caixa do lado esquerdo como ABC e o da
caixa à direita, como 12 13 14. No entanto, o item no meio de ambas as
sequências é idêntico.
Então, como chegou a esta solução? O seu “Sistema I”
reconhece um padrão aprendido, neste caso, o seu "ABC" da escola, e
utiliza este padrão para dar a resposta. A forma do item do meio é ambíguo, mas
acaba por salta para uma conclusão sobre a sua identidade e, ao fazê-lo, não se
torna consciente de que um sistema (sem esforço e incorrectamente, neste caso)
resolveu-lhe a ambiguidade existente. O aspecto mais importante deste pequeno
exercício é que fez uma escolha clara sem ter consciência disto.
Como consultores na área do “Critical Thinking”
frequentemente suportamos a resolução de problemas organizativos, e constantemente
vemos exemplos de executivos que “saltam para a conclusão" por causa da
influência de padrões aprendidos que foram tecidos, ao longo dos anos, no seu “Sistema
I”.
Esta situação é particularmente preocupante se
atentarmos que, a uma velocidade cada vez maior, estes padrões apreendidos
poderão estar a ficar obsoletos, face ao ritmo de mudança que estamos a
experimentar, sem que o decisor/gestor se aperceba deste facto.
C - Tendemos a considerar que só existe aquilo
que conhecemos
É reconhecido que uma das características
essenciais do nosso pensamento associativo é que ele representa apenas ideias
activadas. A informação que não está activada poderia muito bem nem existir. O
“Sistema I” é excelente na construção da melhor história possível que integra
as ideias presentemente activas. A quantidade e a qualidade dos dados, sobre os
quais a história é construída, são em grande parte irrelevantes,
fornecendo-nos, não obstante, uma solução que nos parece lógica e apelativa.
D - Precisamos de pôr constantemente em causa
os nossos referenciais
Acredita-se que o nosso pensamento associativo está
continuamente a desenhar, com base no nas experiências acumuladas, procurando
dar sentido ao mundo que nos rodeia. Só ficamos realmente surpreendidos,
desencadeando uma análise cuidada do “Sistema II”, quando algo conflitua com o
nosso modelo daquilo que consideramos normal.
Um desafio constante é que não sabemos a que
experiências o nosso “Sistema I” acessa para criar as "normas" que
ele usa para testar a validade em diferentes situações.
Bodley Scott dá-nos uma experiência profissional
sua: «Recentemente estava conversando com o CEO, de uma empresa de lacticínios,
que se dizia encantada com o crescimento de 5% das vendas numa determinado tipo
de categoria de produtos.
Aparentemente o anterior Director de Vendas, que
exerceu esta função na empresa por muitos anos, havia renunciado e o seu
substituto entrou com uma abordagem muito diferente. "Eu pensei que nós
estávamos a fazer um bom trabalho nessa categoria", explicou. "Mas,
não tinha ideia do potencial existente”. O “Sistema I” do CEO construiu uma
norma ou referência para o volume de vendas daquela categoria que o “Sistema
II” nunca sentiu a necessidade de questionar, até o advento do novo Director de
Vendas.»
E - Somos muitas vezes propensos a colocar as
perguntas menos adequadas para lidar com as situações com que nos confrontamos
Muitas vezes somos confrontados com problemas difíceis
de resolver ou escolhas complexas a fazer, em que naturalmente o “Sistema I”
vai tentar simplificar o desafio substituindo uma pergunta difícil por uma mais
fácil.
«Quando nos deparamos com perguntas difíceis, tais
como: "Como deve a nossa principal fonte de vantagem competitiva evoluir
ao longo do tempo?” O nosso “Sistema I” irá sugerir algo relacionado, mas um
pouco menos desafiador, como por exemplo: "O que é aquele cliente, com
quem falei na semana passada, disse sobre as razões porque gostou de nós?".
Tais perguntas substitutas podem ajudar mas, é claro, irão, por vezes, causar
erros graves.»
O “Sistema I” irá gerar respostas rápidas para
perguntas difíceis sem impor muito trabalho ao nosso preguiçoso “Sistema II”.
Esta substituição é um processo automático para o “Sistema
I”. O “Sistema II” vai, naturalmente, subscrever a resposta fornecida pelo “Sistema
I”, ou talvez optar por modificá-la um pouco. No entanto, o preguiçoso “Sistema
II” muitas vezes segue o caminho de menor esforço e subscreve a resposta
alternativa sem muito escrutínio e sem que se aperceba que realmente não está a responder correctamente à pergunta.
Estas cinco consequências que decorrem do funcionamento
interno do nosso “Sistema I” merecem-nos, no nosso ponto de vista, uma atenta
reflexão e preocupação por parte dos decisores/gestores das organizações.
O nosso “Sistema I” resulta da evolução de um
comportamento instintivo crítico que respondia de forma quase instantânea sobre
se devia lutar, fugir ou aguardar perante uma determinada situação. Mas poderá este
sistema ser invocado hoje para garantir o sucesso futuro das complexas
organizações em que trabalhamos, da mesma forma que ele garantiu o
desenvolvimento da nossa espécie?
Se aceitarmos que, enquanto indivíduos, tendemos a favorecer,
pela sua facilidade e simplicidade, o nosso “sistema I” de pensamento, percebe-se
que, sem esforço consciente para fazer as coisas de maneira diferente, as
nossas organizações irão "pensar" de forma igualmente simplicista e
tendencialmente equivocada.
À medida que lutamos para ganhar em mercados
altamente competitivos, é realmente adequado que as nossas escolhas
estratégicas sejam alimentadas por informação em grande parte irrelevante e
contaminada emocionalmente ou por lógicas do tipo "o que vê é tudo que
existe"? Deverão os problemas ser enfrentados dentro de um contexto onde a
"norma" é definida em níveis de desempenho insuficientes ou saltando
precipitadamente para as conclusões sem uma análise cuidada das suas causas?
Nota: Este documento foi elaborado utilizando excertos e algumas das reflexões de “What makes a thinking organisation?” de Sam Bodley-Scott


