A
realidade mostra-nos à saciedade que a capacidade de pensamento das
organizações está a tornar-se gradualmente uma das chaves críticas do sucesso
competitivo das organizações.
Uma
organização que procure desenvolver esta competência organizativa, de forma
deliberada e processualmente orientada, está a construir uma vantagem
competitiva significativa sobre os seus mais directos concorrentes.
É
particularmente curioso que as empresas sejam ávidas na aquisição de novos
sistemas de informação que lhes permitam lidar com quantidades crescentes de
informação. Tal implica a aquisição de equipamentos (hardware) cada vez mais
possantes e integrados em redes, para que a informação seja fluída, e o
investimento em novos softwares que trabalham mais informação de uma forma mais
detalhada e analítica produzindo baterias de informação.
Por
oposição, no entanto, a maior parte dos gestores tem dificuldade em perceber
que mais informação não significa uma melhor qualidade de pensamento
organizativo, ou seja, melhores decisões e maior eficácia na resolução de
problemas.
Na
realidade, utilizando como analogia os sistemas de informação, o pensamento da
organização utiliza como hardware a mente de cada individuo e precisa de
garantir que estas mentes são capazes de integrar e produzir consensualmente
informação para a produção de resultados comuns críticos para a organização,
como: decidir a estratégia a prosseguir; os produtos a inovar; etc.
O
problema é que a informação está a aumentar vertiginosamente, bem como, a sua
complexidade e não é possível expandir o hardware. Nestas circunstâncias, o
software, esta habilidade individual e colectiva de recolher, tratar, priorizar, analisar e formular uma decisão e resolver um problema de forma eficaz
e com sentido de urgência, é gritantemente essencial.
E
não adianta, para esse efeito, continuar a gastar milhões em formação,
simplesmente porque essa formação é genericamente de conteúdo, ou seja, é sobre
marketing, finanças, produção, informática, etc. ou é de natureza
comportamental e não de desenvolvimento de habilidades processuais de reflexão
individuais ou colectivas.
Por
esta razão, nas últimas semanas neste blog, fomos evidenciando “o que está
menos bem nos padrões de pensamento que utilizamos nas organizações, quer colectivamente,
quer individualmente”, recordando, de forma sintética:
· as
organizações muitas vezes não conseguem discernir as diferentes formas de
pensamento que precisam de ser garantidas, para responder eficazmente à sua
realidade competitiva, acabando por dar maior ênfase aos processos de
pensamento de natureza mais ligados às operações, prejudicando os processos
estratégico e de inovação. Concomitantemente, revelam dificuldade em tornar estes
processos de pensamento formais e efectivos, capazes de envolver os mais
diversos contributos da organização (ver post de 1/11/2012);
· o
nosso processo individual de pensamento assenta em dois modelos de pensamento
distintos: um mais instintivo/”intuitivo” e um outro mais racional e esforçado.
Por razões que se prendem com a necessidade biológica de poupar energia e de
ter respostas instintivas face a situações criticas, o modelo instintivo, que
funciona de forma associativa, acaba por se tornar dominante.
No entanto, «à medida
que lutamos para ganhar em mercados altamente competitivos, é realmente
adequado que as nossas escolhas estratégicas sejam alimentadas por informação
em grande parte irrelevante e contaminada emocionalmente ou por lógicas do tipo
"o que vê é tudo que existe"? Deverão os problemas ser enfrentados
dentro de um contexto onde a "norma" é definida em níveis de
desempenho insuficientes ou saltando precipitadamente para as conclusões sem
uma análise cuidada das suas causas?» (ver post de 29/11/2012);
· a decisão só pode ser compreendida no contexto cultural onde é formulada, pois a
cultura é “uma força gravitacional que tem uma profunda influência na
formulação de decisão e no comportamento”. Assim, a cultura de contexto, onde a
organização opera, ou a própria cultura da organização constitui muitas e
muitas vezes um poderoso factor de bloqueio do pensamento da organização,
prejudicando também os processos de reflexão individual e colectivos das organizações
(ver post de 13/12/2012).
Então
o que fazer?
O
ponto de partida deverá ser identificar, tornando claro e compreensível, para
todos os elementos críticos da organização, o nível de competências de
pensamento da organização. Por outras palavras, onde nos encontramos hoje.
Que
processos de pensamento colectivo utilizamos hoje? Para quê que os utilizamos?
Como
pensamos colectivamente? Como formalizamos, estruturamos e registamos esse
pensamento? Quando revemos/reavaliamos esse pensamento colectivo?
Quem
envolvemos, para que participe activamente na reflexão realizada e na acção
decorrente? Qual a capacidade que estes processos têm evidenciando para
utilizar o conhecimento da organização de forma transversal, eliminando ou minimizando
os “muros” departamentais? Qual a capacidade de mobilização que esse processos
têm revelado?
De
que forma a nossa acção revela o nosso pensamento e atinge o objectivo a que
nos propomos? Qual o grau de eficácia destes processos de pensamento? Qual a
eficiência desses mesmos processos?
Como
avaliamos a capacidade de formular decisões, percebendo a globalidade das suas
implicações, explorar oportunidades e resolver problemas dos gestores da
organização?
Como
avaliamos a capacidade desses gestores de implementar e executar essas
decisões, minimizando os problemas potenciais com que se irá confrontar?
Como
avaliamos a capacidade dos responsáveis organizativos decidirem, nos diversos níveis
da organização, coerentemente com a estratégia global?
Como
avaliamos a capacidade, em termos de eficácia e eficiência, dos gestores da
organização para articularem conjuntamente decisões e a resolução de problemas,
em reuniões de trabalho? Qual a capacidade evidenciada por esses mesmos
gestores para garantir que essas decisões são efectivamente implementadas?
Está
ou não a cultura organizativa a suportar os processos de pensamento/acção
individuais ou colectivos da organização? Quais são os grandes bloqueios que a
cultura organizativa ou de contexto coloca a esses processos de pensamento/acção?
Quais
as principais dificuldades que processos de mudança anteriores experimentaram?
Quais dessas dificuldades têm raízes na cultura organizativa ou de contexto?
Qual
o modelo de liderança seguido? De que forma esse modelo de liderança contribui
para uma cultura organizativa que suporte e estimule o pensamento organizativo?
Quais
os valores e os antivalores que estão a modelar a cultura organizativa?
Estas
perguntas não pretendem ser exaustivas, mas tão só ajudá-lo a que faça uma
pequena confrontação/reflexão com a realidade da sua organização.
Precisamos
(na realidade, desesperamos!), em Portugal, por organizações que ponham no
centro das suas prioridades a qualidade do pensamento organizativo. Organizações
que percebam que a qualidade da formulação das suas decisões e da resolução dos
seus problemas, aos mais diversos níveis, irá fazer uma enorme diferença, num
mundo globalizado, onde decidir é cada vez mais difícil e complexo e onde a
informação se está a tornar um poço sem fundo.
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