Tendo
em vista encerrar esta reflexão sobre “o que está menos bem nos padrões de
pensamento que utilizamos nas organizações, quer colectivamente, quer
individualmente” vamos hoje reflectir sobre a importância da cultura
organizativa.
A
cultura pode ser percebida como um tapete, ou seja, um entrecruzar de múltiplos
fios (influências) que determinam por efeito uma trama (contexto) onde se
desenvolvem e são interpretadas todas as acções, interacções e relações no
interior de uma organização. Tal como num tapete, o facto de se conhecer as
dimensões/influências (por outras palavras, os fios) que a compõem não me
permite projectar o caldo cultural da organização (na nossa imagem, o resultado
final do tapete). Assim, é no concreto da organização, pela observação atenta,
que se percebe a sua “trama” cultural especifica.
Podendo
ler-se características dessa trama cultural na forma como os clientes são
tratados, na confiança existente entre colaboradores, na forma como decorrem as
reuniões, etc.
Para
Alan P. Brache “A cultura organizativa deve ser entendida como uma força
gravitacional que tem uma profunda influência na formulação de decisão e no
comportamento.”
Por
outras palavras, a cultura organizativa marca profundamente a forma como a
organização pensa, pois nela residem “as normas, as crenças, os valores e as
práticas que definem a personalidade de uma organização”.
Na
generalidade das organizações, a cultura é entendida como uma força escondida,
de certa forma impenetrável e muito resistente à mudança. O problema é que
quanto menos se conhece a cultura da empresa, mais ela influencia de forma
inconsciente a forma como a organização pensa, sem que se possa trazer à luz a
sua influência nas decisões que estão a ser tomadas e que vão determinar o
futuro da organização.
A
cultura organizativa é por natureza um caldo influenciado por diversas dimensões,
das quais destacaríamos, para esta nossa reflexão:
i) a cultura envolvente à própria
organização, ou seja,
a(s) cultura(s) do(s) povo(s) onde opera. Sobre esta dimensão já reflectimos um
pouco no último post;
ii) o modelo de liderança prosseguido e o
conjunto de valores que revela
tem uma influência muito significativa na forma como a cultura modela o pensamento organizativo.
Repare-se
que falamos dos valores que a liderança revela e não aqueles que ela declara.
Como todos sabemos existe uma significativa diferença entre estas duas realidades
e esta diferença, para além de minar a liderança, modela o comportamento das
pessoas no interior da organização e a forma como estas formulam decisões e
resolvem problemas.
Frequentemente,
encontro organizações onde os decisores evitam tomar decisões, simplesmente
porque, apesar de o discurso reconhecer a importância de se assumir uma postura
pró-activa, na generalidade das decisões tomadas a chefia executiva
publicamente encontra defeitos e criticas, ou pior, desautoriza o gestor anulando
a decisão tomada.
Por
outro lado, quantas vezes ao longo da sua vida profissional, perante uma
situação que correu mal ou menos bem, ouviu um responsável organizativo
formular a seguinte pergunta: “Quem é o culpado?”.
Esta
pergunta tem o de poder de destruir de forma significativa a capacidade organizativa
de resolver problemas, para além de modelar uma cultura marcada pelo medo, onde
todos tentarão empurrar culpas e responsabilidades.
A
cultura é absolutamente crítica para os processos de pensamento colectivo da
organização (ver post de 1/11/12), designadamente para os processos de
pensamento estratégico e de pensamento inovador.
Quem
vai propor uma solução criativa, quando a cultura é influenciada por uma
liderança que assume comportamentos como os acima descritos?
iii) os paradigmas dominantes num
determinado sector de actividade
tendem, muitas vezes, a influenciar a cultura organizativa. Com alguma
frequência verificamos que as empresas de um dado sector tendem a assumir
algumas dimensões culturais próximas. Ao percorrê-las apercebemo-nos que há uma
certa forma de estar, de comportar-se e de decidir que tende a ter traços
comuns.
Esta
é uma influência muito imperceptível para quem se move dentro do sector há
muitos anos, que influencia de forma profunda o pensamento das organizações e
até dos seus colaboradores. Esta influência é particularmente perigosa devido à
sua subtileza. Aqueles paradigmas poderão já não ser hoje válidos mas estão
assumidos culturalmente, ou seja, serão dificilmente escrutinados pelo
pensamento organizativo.
Durante
demasiado tempo, algumas das maiores redes de livrarias do mundo não perceberam
na amazon.com uma ameaça.
Simultaneamente,
num dado sector, a função principal da organização tende a ser a mesma: nas
empresas informáticas, a função principal é a de programador informático; numa
instituição financeira, a função principal é a de técnico de finanças; numa
empresa de arquitectura, a função principal é a de arquitecto.
A
mentalidade daquele tipo de profissionais predominante acaba por influenciar de
forma expressiva a cultura da organização, criando-se uma forma de pensamento dominante
que é assumida como um dado adquirido na organização, empobrecendo a capacidade
de reflexão critica sobre a formulação de decisão e a resolução de problemas.
Interrogo-me,
frequentemente, em que medida a crise do sub-prime não poderá ser explicada
parcialmente por este fenómeno.
Enquanto
pessoas precisamos e somos fazedores de cultura, não obstante, é
fundamental garantir que nas organizações a cultura estimula o pensamento e o
diálogo reflexivo critico, que suporta e esclarece uma acção coerente e
consistente com o propósito e os objectivos da organização. Desta forma, a
cultura acelera e entusiasma o desenvolvimento da organização e das pessoas , quando suportada pelos processos de pensamento pertinentes.

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