Seria
insuficiente, no nosso ponto de vista, completar esta reflexão sobre “o que
está menos bem nos padrões de pensamento que utilizamos nas organizações, quer
colectivamente, quer individualmente” sem considerarmos a extrema importância da
influência cultural. Esta influência pode ser percebida, num primeiro plano, na
interpenetração da matriz cultural de um povo numa determinada época e, num
segundo plano, na própria cultura organizativa.
Hoje
iremos debruçar-nos um pouco sobre aquela primeira forma de influência, resultante
da matriz cultural de um povo numa dada época. Na realidade, aquela matriz
cultural envolve uma organização, interpenetrando o “pensamento” organizativo
quer ao nível colectivo, quer a nível individual.
O
líder consciente deve estar bem alerta para a forma como esta influencia a
forma como ele, os seus decisores/gestores e a própria organização: i) interpretam
a realidade; ii) reflectem sobre esta; iii) decidem; iv) implementam e executam
essas decisões.
Como
compreenderá, numa sociedade cada vez mais globalizada, esta questão é muito
premente, pois as organizações operam em diferentes contextos étnicos e
culturais que importam ter bem presentes e que claramente atravessam a forma de
“pensar” das organizações, com influência evidente na sua performance.
Esta
é uma temática muito vasta e complexa – e, no nosso ponto de vista,
genericamente muito mal tratada nas organizações – pelo que dificilmente pode ser
abordada num documento com estas características.
Assim,
e tendo presente o ciclo que procuramos cobrir nestes últimos posts, a “Empresa
que pensa”, iremos apenas procurar ressaltar uma dimensão cultural que, na
nossa experiência de aplicação de Processos de Raciocínio Critico em
organizações em território nacional, constituiu um elemento de perturbação ou
de mesmo de bloqueio do “pensamento” das organizações. Refira-se que, na nossa
experiência, temos constatado existirem outras dimensões que acabam também por
o influenciar e/ou perturbar, mas sobre as quais não se torna possível reflectir
sem abusar da paciência do leitor.
Creio
que todos sentimos que nos povos do Sul da Europa, com características muito
particulares em Portugal, existe um permanente atropelo do acto de “pensar”
pela ansiedade do “agir”. Os efeitos desta realidade são frequentemente
traduzidos em afirmações que recorrentemente ouvimos: “Em Portugal ninguém
planeia”; “As empresas em Portugal não têm estratégia”; “Ninguém pensa nestas
coisas”, etc.
Na
nossa opinião, este problema é extremamente vasto, complexo e verificável nos
mais diversos contextos da realidade do nosso país, desde: o Estado; as
Universidades; as Escolas; as Empresas; as Associações; as Famílias; etc., para
além disso, é muito mais profundo, perigoso e subtil do que o “senso comum”
capta. Por este facto, apesar de todos sabermos isto há muito tempo, nada
realmente muda.
Esta
dimensão cultural tem, no nosso ponto de vista, importantes responsabilidades
na situação actual do país.
O
ritmo de mudança a que estamos actualmente sujeitos, bem como, a aceleração do
“tempo” que experimentamos, associada a esta necessidade da produção de
resultados, no mais curto prazo de tempo, numa matriz cultural que enfatiza o
“fazer” em desfavor do “pensar”, agudiza de forma significativa este problema
no interior de muitas organizações. Na realidade, percebe-se um mantra em
muitos contextos organizativos: “não temos tempo para pensar”.
Sim,
é verdade, “pensar” parece que se tornou um luxo, a que muitos não se podem
dar.
A
questão de fundo, que se esconde por detrás desta influência cultural, é a
ausência de disciplina, por outras palavras, a indisciplina. Falta-nos a
disciplina de pensar, concretamente falta:
- o hábito de criarmos o tempo necessário de reflexão, separado, anterior e causador da acção;
- os processos de pensamento adequados para tornar essa reflexão efectiva, ou seja, verdadeiramente capaz de definir, modelar e antecipar essa acção;
- a habilidade que a aplicação esforçada e intencional desses processos nos permite edificar, quando conseguimos transformar isto numa hábito individual e/ou colectivo no interior de uma organização.
- a reflexão estratégica não existe ou é completamente desfasada da realidade da organização;
- as decisões dos responsáveis organizativos não nos permitem perceber um padrão ou um lógica ou, no melhor dos cenários, revelam zonas de incongruência;
- as decisões não levam em consideração a globalidades das consequências que delas decorrem;
- algumas das iniciativas estratégicas da organização como o lançamento de novos produtos ou a entrada em novos mercados, experimentam problemas diversificados e muitas vezes não permitem alcançar os objectivos pretendidos;
- os gestores “passam a vida a apagar fogos”, porque não se planeou identificando previamente os problemas potenciais e estabelecendo as necessárias medidas de prevenção e protecção;
- alguns dos problemas organizativos são insuficientemente adereçados;
- existem fortes problemas de comunicação;
- etc.
Esta indisciplina é particularmente
evidente em muitas reuniões, em contextos organizativos, que se revelam
inconclusivas e/ou inconsequentes. Simplesmente, porque os participantes ou
desconhecem a necessidade de se seguir uma determinada disciplina de pensamento
(processo) para produzir o resultado pretendido, ou desrespeitam-na
deliberadamente (pois há tanta coisa para fazer!).
Pessoalmente,
entendo que esta indisciplina é um dos factores que melhor explica a falta de competitividade
da nossa economia e de muitas das nossas empresas - apesar dos rios de dinheiro
que se gastaram em formação de recursos humanos nas últimas décadas em
Portugal.
Esta
indisciplina que retira espaço, método e habilidade ao acto de “pensar”,
individual e colectivo, torna a organização por natureza reactiva e
particularmente sujeita às “modas” em que a área da gestão se tem mostrado tão
fértil. Estas “modas” da gestão, muitas delas voltadas mais para a forma do que
para o conteúdo, desfocam as empresas do essencial: desenvolver a sua
capacidade de “pensar” e de estruturar a sua própria reflexão para sistematizar
o “know-how” da organização.
Um
líder organizativo que consigo compreender a extensão e profundidade deste
problema na sua organização e verdadeiramente queira adereçá-lo, pode não só ter
ganhos significativos de produtividade e de competitividade, bem como, pode
alicerçar uma poderosa vantagem competitiva face aos seus concorrentes.

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