Já muito se escreveu sobre o papel crítico da humildade no exercício eficaz da liderança.
Paradoxalmente, no entanto, apesar de se reconhecer a importância da humildade no pensar e agir dos líderes, muito poucas vezes (mesmo muito poucas!) se percebe a sua presença na reflecção e na acção daqueles – e nos mais diversos contextos de liderança, não apenas nos empresariais ou mesmo políticos.
A humildade percebida como uma receptividade, uma condição de silêncio, que é fertilidade, para gerar-se e gerar o novo, é coisa de gente muito madura. Mas tão madura que reconhece, sem ansiedade, continuamente o quanto está ainda por se fazer…
A humildade assim entendida é uma condição essencial ao sucesso da organização no contexto de mudança aguda que experimentamos. Quando tudo muda tão rapidamente, a humildade, enquanto condição de receptividade capaz de gerar, permite-nos antecipar e explorar essa mudança de forma muito mais eficaz.
No entanto, os líderes que hoje conhecemos à frente de organizações, grupos e comunidades são filhos de uma lógica de liderança na qual acabaram por ser modelados. Por outras palavras, são o resultado de um modelo de liderança que existe no interior daquelas organizações, grupos e comunidades.
Terão estes modelos de liderança, a maior parte das vezes apreendidos de forma acrítica, a capacidade de lhes transmitir e desenvolver humildade? Será que estes modelos de liderança promovem líderes capazes de exercer liderança com humildade? Ou pelo contrário, promove líderes que subalternizam a humildade?
Precisamos de organizações onde se respire humildade, onde esta humildade seja um vector estruturante da cultura. E isto quando entendido de forma séria é muito exigente para todos, porque a humildade é trabalho de todos – onde naturalmente a liderança, pelo exemplo, tem um papel fundamental.
Vejo muita gente a procurar palestras motivacionais e muito poucos a construir contextos e culturas que motivem, entusiasmem, mobilizem. A humildade é um valor fundamental para criar uma cultura rica, viva, geradora de mudança e verdadeiramente mobilizadora.
No nosso ponto de vista constatar isto é muito pouco.
Mantem-nos no plano da especulação das ideias, que é naturalmente interessante, mas poderá significar coisa nenhuma na realidade das organizações.
Importa reconhecer isto e arregaçar as mangas, ou seja, encontrar formas concretas, processuais, de trabalhar a cultura organizativa.
Ao longo dos anos, pela observação, fomos constatando que uma das formas mais eficazes de o fazer consiste em trabalhar o conhecimento e a formulação de decisão, em contexto organizativo, pressupondo a ausência de uma hierarquia do conhecimento.
Concretamente, todos trabalham conjuntamente sobre um processo de construção racional, feito passo a passo, em que é tão importante o fim como o caminho em si, em que as encruzilhadas são feitas de encontro e de diálogo com os outros.
Desta forma, reflectir organizativamente é “como entrar num labirinto, mais precisamente é fazer existir e aparecer um labirinto, em que vamos caminhando conjuntamente, quando se poderia ter ficado estendido entre as flores, a olhar o céu. Ficar estendido entre as flores pode significar uma prisão aos esquemas de percepção codificados, baseados na linearidade e num saber disciplinar - acumulativo, que privilegia um tipo de inteligência sobre as demais. Nesta metáfora do labirinto como processo de construção, tudo é considerado texto. É uma rede na qual os saberes estão interligados. Não há um acima e abaixo, não há hierarquias, não há algo que seja mais fundamental do que qualquer outra coisa.” (1)
No final todos contam e todos fazem parte da solução encontrada. Muito mais, criamos uma organização que caminha e descobre/revela o seu próprio caminho, desenvolvendo todos os que nele participam e reforçando a coesão da equipa.
Numa organização com estas características a humildade não é uma palavra ou um chavão, está a ser efectivamente construída a partir da: i) receptividade à opinião do outro, mesmo que muito diferente ou em contra-corrente: ii) permanente leitura e interpretação colectiva do que está a acontecer em torno da organização - ser humilde face aos que nos rodeia.
Uma organização, assim, constrói uma receptividade que a renova, no concreto das suas diversas dimensões, continuamente.
Está a fazer a mudança, em vez de se vitimizar dela.
(1) - Extraido de: “LABIRINTO: METÁFORA DO CONHECIMENTO” de Andréa Havt, Eduardo Loureiro Jr., Fabiano dos Santos, Paulo Meireles Barguil
(1) - Extraido de: “LABIRINTO: METÁFORA DO CONHECIMENTO” de Andréa Havt, Eduardo Loureiro Jr., Fabiano dos Santos, Paulo Meireles Barguil
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