Continuamos na resposta à pergunta colocada por
Vasco Monteiro, em comentário ao post de 14-6: “Mas como propões essa
interligação e sintonia de pensamento entre os departamentos para que exista
este pensamento estratégico? De que forma se consegue esta cooperação?”
Caro Vasco,
A edificação de um raciocínio estratégico coerente
e congruente, que envolva os elementos críticos da organização, “estruturando
os conteúdos/conhecimentos dos participantes, construindo a par e passo (como
quem sobe uma escada) consensos parcelares, que irão permitir que todos se
reconheçam no resultado final, ou seja, na própria estratégia formulada”, como
referi no post anterior, é uma condição necessária para garantir aquela
sintonia/interligação entre departamentos.
Acrescento que é também, no nosso ponto de vista,
uma condição fundamental ao sucesso da própria estratégia. Demasiadas vezes, no entanto, esta dimensão é subavaliada e negligenciada, quer
por gestores profissionais, quer por académicos, quer por consultores.
Em Maio, Karl Moore, professor universitário,
escrevia na Forbes: “O que é mais difícil? Criar e implementar uma estratégia ou
a execução dessa estratégia? Sem dúvida que a sua resposta imediata, pelo menos
para a maioria, será a execução”.
No entanto, Karl Moore ignora que as dificuldades
que se experimentam na execução resultam, tantas e tantas vezes, da pobreza do
raciocínio estratégico que lhe subjaz e na ausência de um compromisso e da
compreensão que os elementos da organização fazem, dos pressupostos e das
consequências dessa estratégia, quando participam activamente no raciocínio
estratégico.
No nosso ponto de vista, o que as empresas devem
ambicionar não é ter uma estratégica global que está a ser melhor ou pior
implementada/executada, mas sim um raciocínio estratégico vivo e dinâmico que
permita de forma continuada aperfeiçoar a própria estratégia a partir das
alterações de contexto, da alteração da nossa própria avaliação sobre essas
circunstâncias, da informação da implementação e da execução, etc.
Mas se o raciocínio estratégico permite-nos
formalizar uma estratégia, não passará de uma bela quimera se não estabelecermos
metas que nos permitam garantir que a estamos a realizar. Desta forma,
precisamos de estabelecer posições concretas a conquistar e a defender a que
chamamos Objectivos Estratégicos. A abordagem metodológica que faz com que a
equipa estabeleça consensualmente os seus próprios Objectivos Estratégicos, o
que são, como se trabalham, etc., embora seja muito importante, ultrapassa o
propósito deste documento.
Deixo-te, no entanto, alguns aspectos fundamentais que deverão ser garantidos para que estes suportem a sintonia de que falas: os objectivos
estratégicos devem ser poucos, muito concretos e assumidos como objectivos de
toda a organização; estes objectivos devem ter um responsável e serem desenvolvidos e perseguidos por uma equipa transversal, com elementos de diversos “silos” departamentais,
que reúna as competências críticas da organização para o propósito em causa.
Caro Vasco, se, por exemplo, o objectivo é penetrar num novo
mercado geográfico, é critico para a própria organização que esta equipa integre elementos dos seus “silos” fundamentais, quer sejam: a
comercial, o marketing, a logística, a produção, a financeira, os recursos
humanos, etc.. Na realidade, todos eles precisam de contribuir para a mudança
necessária para a prossecução daquela posição estratégica.
Uma outra dimensão crítica, resultante do próprio raciocínio
estratégico, ocorre quando a equipa de gestão se confronta com a nova
estratégia. A primeira constatação é que há muita coisa que precisa de ser modificada na organização para que
esta esteja em condições de a realizar. Esta lista de necessidades de mudança, constituída por dimensões
que precisam de ser trabalhadas para suportarem a estratégia global, a que poderíamos
chamar “Assuntos Críticos”, cobre os mais diversos aspectos da organização: formar
colaboradores; adquirir/alterar sistemas de informação; modificar processos de
trabalho; etc.
Ora bem, os “Assuntos Críticos” devem ser
identificados, planeados, executados e monitorizados por um metodologia cuidada
e robusta para permitir ao líder da organização conhecer e orientar os esforços
que lhe são dirigidos.
Mais uma vez aqui, como nos Objectivos
Estratégicos, muitas vezes estamos perante mudanças de natureza transversal,
pelo que importa que os Assuntos Críticos sejam adereçados por equipas
multidisciplinares (ou sejam, envolvendo elementos dos “silos” pertinentes).
Poderia alongar-me muito mais sobre outras
ferramentas complementares que suportam este objectivo da sintonia, que permitem aprofundá-la
ao longo da organização, mas corremos o risco de tornar este “post” muito
pesado e de difícil leitura.
Se reparares Vasco, falei-te apenas de três coisas:
i) a
necessidade de um processo que enforme o raciocínio estratégico da organização
para garantir a compreensão e a adesão dos elementos críticos da organização à estratégia;
ii) os
Objectivos Estratégicos que envolvem todos os departamentos na sua concretização;
iii) os
Assuntos Críticos que criam condições para a concretização dessa estratégia mobilizando
os elementos pertinentes dessa organização,
se o Chefe Executivo garantir posteriormente a existência
de “momentum” e de uma efectiva atenção da liderança sobre o desenvolvimento
destas dimensões (através de reuniões periódicas), ele estabelecerá a
disciplina que permitirá chegar, através da sua determinação, à interligação
e sintonia de pensamento entre os departamentos - onde se pode perceber uma
organização liderada estrategicamente.
Não sei se alguma vez te interrogaste, por que
razão escolhemos a imagem que está no topo do blogue. Ao contrário do que muita
gente pensa, não chega remarmos todos para o mesmo lado, é fundamental que
consigamos remar todos com um ritmo, uma cadência constante e igual, entre todos
os remadores, para podermos chegar em primeiro lugar à meta.
Na realidade, é disto que te tenho estado a falar.
Espero ter respondido de forma esclarecedora à tua
questão.
Um abraço.
3 comentários:
Completamente!! É fantástico seguir a tua linha de raciocínio, porque a das á semelhança do proprio pensamento estratégico.
Fiquei extremamente elucidado. em relação à minha questão.
No entanto, levantam-se agora outras questões.
Este pensamento estratégico que implica como vimos, várias variáveis, das quais inuméras algumas, implica a meu ver, um trabalho árduo e se calhar longo. Se estiver correto, numa organização já existente e que quer começar a implementar este tipo de pensamento, vai trazer ainda mais dificuldades, porque vai implicar muita mudança, e no entanto, o mundo que rodeia a organização não para, e ela tem de continuar a pelo menos aguentar-se até o processo estar minimamente conseguido. Parece-me que no caso de uma organização que ainda não existe no mercado, será mais fácil, embora implique na mesma custos que tem de ser suportados enquanto ainda não opera no mercado e por isso não "fatura". Mas como dizia , numa organização já existente e mediante o que disse atrás como se introduz este pensamento, mantendo a organização em funcionamento e não a deixando entrar em colapso? Não sei se me estou a fazer entender, ou se estou a perguntar algo que não faz muito sentido...
Caro Vasco,
Antes demais, muito obrigado pelo teu comentário.
Creio que a pergunta que colocas é: como vamos garantir tempo para o trabalho subjacente ao raciocino estratégico e simultaneamente para as actividades operativas que realizamos no interior do “silo”?
A pergunta encerra dois pressupostos que, no meu ponto de vista, não são factuais:
A – o processo utilizado para raciocinar é fortemente consumidor de tempo;
B – As actividade operativas (o fazer) consomem-nos tanto tempo, que não podemos dar-nos ao luxo de perder tempo a pensar. Repara que sei que não dizes isto, mas é a lógica que anda por detrás.
Quanto ao ponto A, devemos escolher uma abordagem que se ajuste àquilo que achamos adequado e simultaneamente nos dê garantias de ser eficaz e eficiente.
Na minha experiência, quando aplicado por quem sabe, consome muito menos tempo do que se imagina.
Quanto ao ponto B, este pressuposto encerra uma das mais intensas e fortes resistências ao raciocínio estratégico. Na realidade, quem aceita este pressuposto nunca vai ter tempo, porque está preso num paradigma eminentemente reactivo, ou seja, vai permitir que as operações se imponham ao raciocínio estratégico. Por outras palavras, o urgente vai impor-se ao importante.
A verdade é que quando te determinares a ter tempo para o importante (pensar/planear), vais verificar que o urgente (responder) tende a diminuir. Na prática, gerirás mais eficazmente o teu tempo.
A alternativa é deixares-te levar pela corrente, como a maior parte das organizações que conheço, e, como não raciocinas estrategicamente, vais chegar onde calhar.
A escolha é esta! Liderar é mais do que assumir o leme, é saber para onde ir!
Um abraço,
Luís
Obrigado Luis. Faz todo o sentido o que dizes.
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