quinta-feira, 21 de junho de 2012

MAS COMO...? - II



Continuamos na resposta à pergunta colocada por Vasco Monteiro, em comentário ao post de 14-6: “Mas como propões essa interligação e sintonia de pensamento entre os departamentos para que exista este pensamento estratégico? De que forma se consegue esta cooperação?”

Caro Vasco,

A edificação de um raciocínio estratégico coerente e congruente, que envolva os elementos críticos da organização, “estruturando os conteúdos/conhecimentos dos participantes, construindo a par e passo (como quem sobe uma escada) consensos parcelares, que irão permitir que todos se reconheçam no resultado final, ou seja, na própria estratégia formulada”, como referi no post anterior, é uma condição necessária para garantir aquela sintonia/interligação entre departamentos.

Acrescento que é também, no nosso ponto de vista, uma condição fundamental ao sucesso da própria estratégia. Demasiadas vezes, no entanto, esta dimensão é subavaliada e negligenciada, quer por gestores profissionais, quer por académicos, quer por consultores.

Em Maio, Karl Moore, professor universitário, escrevia na Forbes: “O que é mais difícil? Criar e implementar uma estratégia ou a execução dessa estratégia? Sem dúvida que a sua resposta imediata, pelo menos para a maioria, será a execução”.
No entanto, Karl Moore ignora que as dificuldades que se experimentam na execução resultam, tantas e tantas vezes, da pobreza do raciocínio estratégico que lhe subjaz e na ausência de um compromisso e da compreensão que os elementos da organização fazem, dos pressupostos e das consequências dessa estratégia, quando participam activamente no raciocínio estratégico.

No nosso ponto de vista, o que as empresas devem ambicionar não é ter uma estratégica global que está a ser melhor ou pior implementada/executada, mas sim um raciocínio estratégico vivo e dinâmico que permita de forma continuada aperfeiçoar a própria estratégia a partir das alterações de contexto, da alteração da nossa própria avaliação sobre essas circunstâncias, da informação da implementação e da execução, etc.

Mas se o raciocínio estratégico permite-nos formalizar uma estratégia, não passará de uma bela quimera se não estabelecermos metas que nos permitam garantir que a estamos a realizar. Desta forma, precisamos de estabelecer posições concretas a conquistar e a defender a que chamamos Objectivos Estratégicos. A abordagem metodológica que faz com que a equipa estabeleça consensualmente os seus próprios Objectivos Estratégicos, o que são, como se trabalham, etc., embora seja muito importante, ultrapassa o propósito deste documento.

Deixo-te, no entanto, alguns aspectos fundamentais que deverão ser garantidos para que estes suportem a sintonia de que falas: os objectivos estratégicos devem ser poucos, muito concretos e assumidos como objectivos de toda a organização; estes objectivos devem ter um responsável e serem desenvolvidos e perseguidos por uma equipa transversal, com elementos de diversos “silos” departamentais, que reúna as competências críticas da organização para o propósito em causa.
Caro Vasco, se, por exemplo, o objectivo é penetrar num novo mercado geográfico, é critico para a própria organização que esta equipa integre elementos dos seus “silos” fundamentais, quer sejam: a comercial, o marketing, a logística, a produção, a financeira, os recursos humanos, etc.. Na realidade, todos eles precisam de contribuir para a mudança necessária para a prossecução daquela posição estratégica.

Uma outra dimensão crítica, resultante do próprio raciocínio estratégico, ocorre quando a equipa de gestão se confronta com a nova estratégia. A primeira constatação é que há muita coisa que precisa de ser modificada na organização para que esta esteja em condições de a realizar. Esta lista de necessidades de mudança, constituída por dimensões que precisam de ser trabalhadas para suportarem a estratégia global, a que poderíamos chamar “Assuntos Críticos”, cobre os mais diversos aspectos da organização: formar colaboradores; adquirir/alterar sistemas de informação; modificar processos de trabalho; etc.

Ora bem, os “Assuntos Críticos” devem ser identificados, planeados, executados e monitorizados por um metodologia cuidada e robusta para permitir ao líder da organização conhecer e orientar os esforços que lhe são dirigidos.
Mais uma vez aqui, como nos Objectivos Estratégicos, muitas vezes estamos perante mudanças de natureza transversal, pelo que importa que os Assuntos Críticos sejam adereçados por equipas multidisciplinares (ou sejam, envolvendo elementos dos “silos” pertinentes).

Poderia alongar-me muito mais sobre outras ferramentas complementares que suportam este objectivo da sintonia, que permitem aprofundá-la ao longo da organização, mas corremos o risco de tornar este “post” muito pesado e de difícil leitura.

Se reparares Vasco, falei-te apenas de três coisas:
  
i) a necessidade de um processo que enforme o raciocínio estratégico da organização para garantir a compreensão e a adesão dos elementos críticos da organização à estratégia;
ii) os Objectivos Estratégicos que envolvem todos os departamentos na sua concretização;
iii) os Assuntos Críticos que criam condições para a concretização dessa estratégia mobilizando os elementos pertinentes dessa organização,
  
se o Chefe Executivo garantir posteriormente a existência de “momentum” e de uma efectiva atenção da liderança sobre o desenvolvimento destas dimensões (através de reuniões periódicas), ele estabelecerá a disciplina que permitirá chegar, através da sua determinação, à interligação e sintonia de pensamento entre os departamentos - onde se pode perceber uma organização liderada estrategicamente.

Não sei se alguma vez te interrogaste, por que razão escolhemos a imagem que está no topo do blogue. Ao contrário do que muita gente pensa, não chega remarmos todos para o mesmo lado, é fundamental que consigamos remar todos com um ritmo, uma cadência constante e igual, entre todos os remadores, para podermos chegar em primeiro lugar à meta.
Na realidade, é disto que te tenho estado a falar.

Espero ter respondido de forma esclarecedora à tua questão.

Um abraço.

3 comentários:

Vasco Monteiro disse...

Completamente!! É fantástico seguir a tua linha de raciocínio, porque a das á semelhança do proprio pensamento estratégico.
Fiquei extremamente elucidado. em relação à minha questão.
No entanto, levantam-se agora outras questões.
Este pensamento estratégico que implica como vimos, várias variáveis, das quais inuméras algumas, implica a meu ver, um trabalho árduo e se calhar longo. Se estiver correto, numa organização já existente e que quer começar a implementar este tipo de pensamento, vai trazer ainda mais dificuldades, porque vai implicar muita mudança, e no entanto, o mundo que rodeia a organização não para, e ela tem de continuar a pelo menos aguentar-se até o processo estar minimamente conseguido. Parece-me que no caso de uma organização que ainda não existe no mercado, será mais fácil, embora implique na mesma custos que tem de ser suportados enquanto ainda não opera no mercado e por isso não "fatura". Mas como dizia , numa organização já existente e mediante o que disse atrás como se introduz este pensamento, mantendo a organização em funcionamento e não a deixando entrar em colapso? Não sei se me estou a fazer entender, ou se estou a perguntar algo que não faz muito sentido...

LEADING CHANGE disse...

Caro Vasco,
Antes demais, muito obrigado pelo teu comentário.
Creio que a pergunta que colocas é: como vamos garantir tempo para o trabalho subjacente ao raciocino estratégico e simultaneamente para as actividades operativas que realizamos no interior do “silo”?
A pergunta encerra dois pressupostos que, no meu ponto de vista, não são factuais:
A – o processo utilizado para raciocinar é fortemente consumidor de tempo;
B – As actividade operativas (o fazer) consomem-nos tanto tempo, que não podemos dar-nos ao luxo de perder tempo a pensar. Repara que sei que não dizes isto, mas é a lógica que anda por detrás.

Quanto ao ponto A, devemos escolher uma abordagem que se ajuste àquilo que achamos adequado e simultaneamente nos dê garantias de ser eficaz e eficiente.
Na minha experiência, quando aplicado por quem sabe, consome muito menos tempo do que se imagina.

Quanto ao ponto B, este pressuposto encerra uma das mais intensas e fortes resistências ao raciocínio estratégico. Na realidade, quem aceita este pressuposto nunca vai ter tempo, porque está preso num paradigma eminentemente reactivo, ou seja, vai permitir que as operações se imponham ao raciocínio estratégico. Por outras palavras, o urgente vai impor-se ao importante.
A verdade é que quando te determinares a ter tempo para o importante (pensar/planear), vais verificar que o urgente (responder) tende a diminuir. Na prática, gerirás mais eficazmente o teu tempo.
A alternativa é deixares-te levar pela corrente, como a maior parte das organizações que conheço, e, como não raciocinas estrategicamente, vais chegar onde calhar.
A escolha é esta! Liderar é mais do que assumir o leme, é saber para onde ir!

Um abraço,

Luís

Vasco Monteiro disse...

Obrigado Luis. Faz todo o sentido o que dizes.