As
organizações devem ambicionar dispor de uma linguagem clara, para suportar
eficazmente a formulação de decisão ao longo da organização e o diálogo interno
fundamental para permitir que essas decisões possam ser construídas conjunta e consensualmente.
Este desiderato implica existir um rigor mínimo no léxico da organização.
Quanto
dizemos que a empresa teve prejuízo, de uma forma genérica, todos sabemos o que
isto significa. Não obstante, poderá haver interesse em que na própria empresa
se defina o que é ter prejuízo, ou seja, que proveitos e custos devem ser
considerados para esse efeito.
Mas
experimente perguntar na sua empresa, a cada um dos seus colegas ou subordinados: o que é estratégia? Faça-o de preferência por escrito.
Na
minha experiência de vários anos, a fazer esta pergunta, tenho observado dois padrões: geralmente as definição propostas são vagas e difusas (sendo por isso de reduzida
utilidade para a organização), do tipo: “é o rumo da organização”, ou existem
várias definições que, quando observadas com atenção, percebemos serem muito
distintas.
E
será possível formular, implementar e executar uma estratégia quando os colaboradores
chave não sabem ou têm várias opiniões sobre o que isso é?
O pior,
como diz Isabel Nicolau, num estudo do INDEG/ISCTE, denominado de “O CONCEITO
DE ESTRATÉGIA”, é que “à primeira vista parece tratar-se de um conceito estabilizado,
de sentido consensual e único, de tal modo que, na maior parte das vezes, entende-se
ser escusada a sua definição.
Contudo,
um pouco de atenção ao sentido em que a palavra é usada permite, desde logo,
perceber que não existe qualquer uniformidade, podendo o mesmo termo referir-se
a situações muito diversas.”
Na
realidade, esta dificuldade que as organizações experimentam, existe também nos
meios académicos, pois como refere Isabel Nicolau, “as definições do conceito
de estratégia são quase tão numerosas quanto os autores que as referem”, mas
pior, são diferenças significativas e de fundo, tendo expressivas implicações na
forma como a estratégia deve ser entendida e desdobradas as suas consequências
para a organização.
Nesse
documento, são referidos vários conceitos de estratégia, dos quais citarei
alguns para, sem o maçar, poder ilustrar as diferenças significativas
existentes.
“Estratégia
é a determinação dos objectivos básicos de longo prazo de uma empresa e a
adopção das acções adequadas e afectação de recursos para atingir esses objectivos.”
Chandler (1962)
“Estratégia
refere-se à relação entre a empresa e o seu meio envolvente: relação actual
(situação estratégica) e relação futura (plano estratégico, que é um conjunto
de objectivos e acções a tomar para atingir esses objectivos).” Katz (1970)
“Estratégia
é o forjar de missões da empresa, estabelecimento de objectivos à luz das
forças internas e externas, formulação de políticas específicas e estratégias
para atingir objectivos e assegurar a adequada implantação de forma a que os
fins e objectivos sejam atingidos.” Steiner e Miner (1977)
“Estratégia
competitiva são acções ofensivas ou defensivas para criar uma posição
defensável numa indústria, para enfrentar com sucesso as forças competitivas e assim
obter um retorno maior sobre o investimento.” Porter (1980)
“Estratégia
designa o conjunto de critérios de decisão escolhido pelo núcleo estratégico
para orientar de forma determinante e durável as actividades e a configuração
da empresa. Martinet.” (1984)
“Estratégia
é uma força mediadora entre a organização e o seu meio envolvente: um padrão no
processo de tomada de decisões organizacionais para fazer face ao meio
envolvente.” Mintzberg (1988)
Observando
só as definições de Porter e Mintzberg, percebemos que estamos em duas escolas
de pensamento da estratégia completamente distintas, para Michael Porter, o
cerne está nas acções (ou seja, no como), para Mintzberg, o cerne está num
padrão de tomada de decisão, ou seja, num conjunto de critérios que determinam
as escolhas da organização (ou seja, no que).
O
problema é nem sempre nos apercebemos que estamos na mesma organização a
utilizar conceitos diferente, a utilizar simultaneamente
instrumentos de gestão que se baseiam em conceitos distintos e muitas vezes
recorremos a consultores que partem de lógicas estratégicas diferentes das
nossas e diferentes entre si – por exemplo: o consultor de marketing está a
utilizar um conceito distinto do consultor de estratégia.
Aparentemente,
esta poderá parecer-lhe uma questão teórica - para os académicos se entreterem. Mas
não é!
No
nosso ponto de vista, hoje, mais do que nunca, as empresas que não possuam uma
liderança estratégia coerente - fundada numa estratégia realista, formulada com
base num raciocínio estratégico sincero, rigorosamente implementada,
monitorizada e revista -, encontram-se numa situação de grande vulnerabilidade.
Importa,
por isso, muitíssimo, responder de forma clara e efectiva para o futuro da organização
à seguinte pergunta: “Mas afinal, o que é para nós Estratégia?”
Sem uma resposta clara, consensual e apreendida pelos elementos críticos da organização, a esta pergunta, tudo o que disser e fizer no âmbito da estratégia vai atravessar um longo desertos de equívocos e mal-entendidos.
Sem uma resposta clara, consensual e apreendida pelos elementos críticos da organização, a esta pergunta, tudo o que disser e fizer no âmbito da estratégia vai atravessar um longo desertos de equívocos e mal-entendidos.

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